Entre Florence Welch, a Estética Cottagecore Gótico e o Reinado da Gucci

domingo, 26 de abril de 2026


Florence Welch é a musa absoluta da Gucci (especialmente na era Alessandro Michele). Ela transformou o estilo vitoriano, as rendas, as transparências e os tecidos fluidos em um uniforme de poder. Florence se veste para "flutuar" no palco, unindo a moda de luxo à performance teatral.

"It’s hard to dance with a devil on your back, so shake him off!"

Enquanto a voz de Florence Welch ecoava nos meus fones durante um trajeto de autocarro por Lisboa, senti o arrependimento subir pela pele. Não era apenas música; era um manifesto. E no mundo da moda, ninguém traduz esse "caos lírico" tão bem quanto a Gucci.

Quem é a Gucci e por que ela nos fascina?

Fundada em 1921 em Florença, a Gucci começou com malas de couro inspiradas na nobreza inglesa, mas transformou-se no símbolo máximo do ecletismo italiano. A marca sempre teve uma relação simbiótica com divas e arte — de Grace Kelly (para quem criaram o icônico padrão Flora) a Harry Styles e, claro, a nossa "Summa Sacerdotisa", Florence Welch.

A Gucci não vende apenas roupas; ela vende narrativas. Ela veste mulheres que não têm medo de serem excessivas, intelectuais e, por vezes, um pouco fantasmagóricas.

A Estética: Cottagecore Gótico

Se o Cottagecore tradicional é sobre campos de flores, vestidos de linho e uma vida bucólica ao sol, o Cottagecore Gótico é o seu lado sombrio e fascinante. Imagine uma camponesa que vive numa floresta enevoada, que lê clássicos de terror à luz de velas e que usa rendas vitorianas enquanto colhe ervas à meia-noite.

É a estética da vulnerabilidade que possui garras. É exatamente onde a Florence habita e onde a Gucci, especialmente sob a era de Alessandro Michele e agora evoluindo com Sabato De Sarno, encontra o seu refúgio.

  • Rendas e Transparências: O romantismo que não esconde a dor.

  • Veludos Profundos: O peso da história e do drama.

  • Motivos Botânicos: A natureza que tanto cura quanto consome.

O Vrau do Destino: Da Poeira à Passarela

Muitas vezes, a vida obriga-nos a um trabalho braçal que parece "atrofiar" a nossa mente. Mas, tal como a estética Cottagecore Gótico sugere, há beleza na sombra e força no sacrifício.

Ver a Florence no palco vestindo Gucci é lembrar-me que, mesmo quando estamos a "sacudir o diabo das costas" (ou a limpar o pó de uma prateleira em Vialonga), a nossa essência é feita de arte e luxo. O meu cérebro pode estar exausto, mas a minha visão permanece treinada para o belo.

Hoje, entre um gole de cerveja e um parágrafo escrito, eu "sacudo" as expectativas alheias. Se a Gucci é sobre a liberdade de ser estranha e maravilhosa, eu escolho ser a onça que, mesmo cansada, nunca perde o faro para a próxima capa de revista.

VRAU! Porque até para chorar no busão, a gente mantém a estética.

A Pequena-Grande Conquista que Cabe num Uniforme da Mango

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Transição de carreira em Portugal: Como um uniforme novo encerrou meu ciclo de cuidadora e resgatou minha autoestima

 

São 3h30 da manhã. O silêncio de Lisboa lá fora só é interrompido pelo barulho dos meus pensamentos e pela fome de quem está em jejum para exames, mas a verdade é que eu já me sinto alimentada. Alimentada por uma imagem que não sai da minha cabeça: eu, diante do espelho da Mango, experimentando o uniforme do meu novo trabalho.

Para quem vê de fora, é apenas uma calça e um blazer. Para mim, é um portal.

O Peso que Ficou na Paragem de Autocarro

Olhar para aquele caimento perfeito me fez lembrar, num flash, de todas as madrugadas de escuro, frio e chuva nas paragens de autocarro enquanto a cidade ainda dormia. Lembrei das mãos que, por meses, executaram um trabalho mecânico, exaustivo e que desafiava minhas habilidades todos os dias. Ser cuidadora me trouxe a Lisboa, me deu frutos e me permitiu honrar contratos até o último segundo — recebi até uma mensagem linda de despedida — mas o corpo cobra o preço de estar fora do seu lugar de direito.

O trabalho era mecânico, mas a ansiedade que ele me causava era humana demais.

Da "Shein por Menor Preço" ao Toque da Mango

No Brasil, a Mango sempre foi um horizonte distante. Num país onde a moda de qualidade é um luxo proibido, eu era a cliente que garimpava peças plus size na Shein, ordenando sempre pelo "menor preço". Se algo passava de R$ 100, já era um investimento pesado; uma peça de R$ 400 era um delírio.

Entrar naquela loja, que eu já namorava toda vez que descia para o trabalho no metrô Restauradores, sentir o toque macio do tecido e o corte que respeita o corpo não foi apenas "fazer uma prova de roupa". Foi entender que a minha realidade mudou. E o espelho ainda me deu um bônus: 10kg a menos. Não foram apenas quilos de gordura que se foram, mas o peso de uma vida que não me cabia mais.

"A moda sempre foi minha linguagem, mas por muito tempo eu só conseguia falar o básico. Hoje, eu finalmente comecei a declinar os verbos que eu sempre quis."

O Orgulho de Vestir a Si Mesma

Esta semana eu pego meu uniforme definitivo. Vou usá-lo com a certeza de que cada lágrima e cada segundo de incerteza valeram a pena. Para uma amante de moda e beleza, esse uniforme é a minha armadura de luxo para conquistar Cascais.

Encerro o ciclo de cuidadora com gratidão, mas fecho a porta com a chave de ouro de quem sabe que, finalmente, voltou para casa — não para o Brasil, mas para dentro de si mesma, para a carreira que ama e para a dignidade que o rímel e o blazer representam.

VRAU! O novo capítulo começou e ele tem um caimento impecável.

O Surrealismo das Laranjeiras

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Lisboa tem um cheiro específico nas manhãs de sábado: é uma mistura de café torrado com a humidade das pedras antigas e uma pitada de esperança vã. Eu acordei com a determinação de uma onça. O destino? As Laranjeiras. O objetivo? Um número. O tal do NISS, esse código de barras da alma que me separa da minha próxima vida executiva.

O meu dia começou no Colombo, aquele templo do consumo que, às nove da manhã, ainda boceja. Fui direta à Note!. O som da impressora cuspindo o meu agendamento da AIMA era como música clássica. Ali, naquele papel térmico, estava a prova de que eu existo, de que sou uma "procuradora de trabalho" com selo oficial. Saí de lá com o meu escudo de papel na mão, pronta para a batalha.

Duas paragens de metro depois, a realidade deu-me um estalo de luva branca.

A Loja do Cidadão das Laranjeiras não é um edifício público; é um ensaio sobre a cegueira de Saramago misturado com um quadro de Salvador Dalí. Cheguei e o painel de senhas já tinha morrido. "Não há senhas para a Segurança Social", dizia o segurança com aquela indiferença de quem já viu mil impérios caírem antes do almoço.

Olhei para o relógio. Olhei para o meu papel impresso. Olhei para a multidão de rostos ansiosos, todos à espera de um milagre burocrático que não veio. É um surrealismo cruel: o sistema pede-me um comprovativo que ele próprio não consegue processar, e quando eu levo o corpo e a alma até ao balcão, o balcão fechou-se para balanço.

Voltei para Benfica com oito euros na conta e uma dignidade que, curiosamente, não se mede em dígitos. O meu pedido online foi indeferido por um algoritmo que não sabe ler entrelinhas, que não entende que um agendamento para junho é o meu "estou aqui e não vou embora".

Mas a ironia é a melhor parte da escrita. Agora, enquanto o sol se põe e o tempo nublado me rouba a luz da L'Oréal, eu preparo-me para outro tipo de inspeção. O NISS falhou hoje, mas o meu batom vermelho Lancôme não falha nunca.

Vou trocar o surrealismo das senhas pelo mistério de um copo de vinho no Cais do Sodré. Porque em Portugal, se a burocracia te fecha a porta, tu pintas os lábios, vestes o trench coat e esperas pelo próximo capítulo. Afinal, uma onça não chora por senhas perdidas; ela guarda as garras para quando o banquete for, finalmente, servido.