O Surrealismo das Laranjeiras

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Lisboa tem um cheiro específico nas manhãs de sábado: é uma mistura de café torrado com a humidade das pedras antigas e uma pitada de esperança vã. Eu acordei com a determinação de uma onça. O destino? As Laranjeiras. O objetivo? Um número. O tal do NISS, esse código de barras da alma que me separa da minha próxima vida executiva.

O meu dia começou no Colombo, aquele templo do consumo que, às nove da manhã, ainda boceja. Fui direta à Note!. O som da impressora cuspindo o meu agendamento da AIMA era como música clássica. Ali, naquele papel térmico, estava a prova de que eu existo, de que sou uma "procuradora de trabalho" com selo oficial. Saí de lá com o meu escudo de papel na mão, pronta para a batalha.

Duas paragens de metro depois, a realidade deu-me um estalo de luva branca.

A Loja do Cidadão das Laranjeiras não é um edifício público; é um ensaio sobre a cegueira de Saramago misturado com um quadro de Salvador Dalí. Cheguei e o painel de senhas já tinha morrido. "Não há senhas para a Segurança Social", dizia o segurança com aquela indiferença de quem já viu mil impérios caírem antes do almoço.

Olhei para o relógio. Olhei para o meu papel impresso. Olhei para a multidão de rostos ansiosos, todos à espera de um milagre burocrático que não veio. É um surrealismo cruel: o sistema pede-me um comprovativo que ele próprio não consegue processar, e quando eu levo o corpo e a alma até ao balcão, o balcão fechou-se para balanço.

Voltei para Benfica com oito euros na conta e uma dignidade que, curiosamente, não se mede em dígitos. O meu pedido online foi indeferido por um algoritmo que não sabe ler entrelinhas, que não entende que um agendamento para junho é o meu "estou aqui e não vou embora".

Mas a ironia é a melhor parte da escrita. Agora, enquanto o sol se põe e o tempo nublado me rouba a luz da L'Oréal, eu preparo-me para outro tipo de inspeção. O NISS falhou hoje, mas o meu batom vermelho Lancôme não falha nunca.

Vou trocar o surrealismo das senhas pelo mistério de um copo de vinho no Cais do Sodré. Porque em Portugal, se a burocracia te fecha a porta, tu pintas os lábios, vestes o trench coat e esperas pelo próximo capítulo. Afinal, uma onça não chora por senhas perdidas; ela guarda as garras para quando o banquete for, finalmente, servido.

A Carrie Bradshaw de Lisboa (A Crônica dos Copos e Fardas)

terça-feira, 21 de abril de 2026

 

Lisboa é uma cidade de subidas íngremes e promessas de jantares que viram copos.

Conheci um homem que prometeu o mundo, passeios em praias paradisíacas no verão, vistas de pores do sol de tirar o fôlego, mas na hora H oferece um "copo" às 21h30 e um “vamos para casa tirar essa roupa”.

O vermelho do batom é a minha única certeza nessa noite de incertezas, que começou com um jantar e vai terminar sabe-se lá Deus como, provavelmente comigo dormindo na minha cama depois do bendito copo.

Já tinha minuciosamente calculado o look com vestido vermelho e trench coat, adequados para um jantar, mas precisei recalcular a rota para algo mais simples que combine com a despretensão de “um copo”, que por acaso estou tomando em casa, na minha cama, ouvindo minha música sem ter que fazer caras e bocas para assuntos extenuantes de um primeiro encontro.

Já começo ele na base do ódio.

Pois já comecei a receber menções sutis a membros entumecidos, “por minha causa”, disse.

Se eles soubessem quão broxante é receber uma foto não solicitada de piroca!

Quando recebo foto de visualização única já começo meu processo de broxar e desinteresse.

É automático.

Eu estou por um triz de desmarcar essa merda. Perdi total o interesse.

Virou mais um na fila do pão, infelizmente.

Parecia tão promissor.

Acabamos conversando, perguntei se o interesse dele era sexo apenas e que eu havia interpretado errado.

Ele por sua vez disse que há desejo sim, mas que quer conhecer também a minha personalidade.

Enfim, haverá date e volto com updates.

O date

Ele chegou pontualmente as 22h, abriu a porta do carro para mim, tentou me dar um beijo na boca, mas me virei e dei 2 beijinhos no rosto. Mas não demorou muito a barreira invisível que eu coloquei, pois, no primeiro sinal fechado ele me tascou um beijo na boca.

Fraco. Fiasco. Nada encaixou. Só queria um beijo gostoso, sabe?

Se o beijo é o trailer do filme, ontem eu saí no meio da sessão porque a trilha sonora estava fora de ritmo e os efeitos especiais... bom, eles nem apareceram.

Fomos para a rua rosa cheia de guarda-chuvas perto do Cais Sodré, entramos em uma boate famosa que já foi um puteiro e lá tomamos um copo. Até então, mesmo com o beijo que não encaixou, a noite ainda parecia promissora.

Terminamos o copo, nos pegamos um pouco pelos cantos escuros e convidativos do lugar e uma decisão precisava ser tomada: vir para casa e dormir, ou esticar a noite na casa dele e descobrir se ele teria pegada. Pensei no caminho até o estacionamento e depois de um pega intenso no elevador, pensei “fodasse” e fui.

Fomos casa dele depois do copo, pois eu estava de fogo porque estava bebendo desde a tarde com minha roommate.

O cara é lindo e gostoso, isso é inegável.

Em dado momento ele me suspendeu em uma bancada, que ficava de frente para uma janela com uma vista linda das luzes noturnas da cidade como testemunha do que ocorria ali, na cozinha.

Depois fomos para o sofá, macio, confortável e convidativo e continuamos.

Mas o séquiçu, assim como o beijo também não foi lá essas coisas...

Ouvi dizer maravilhas dos portugueses, que satisfazem a mulher plenamente primeiro para apenas depois se preocupar com seu próprio prazer, mas....

A Falta de "Cunnilingus"

Um homem que não desce até a "preciosa" — especialmente para uma mulher que exala Lancôme e sofisticação — é um homem que não sabe servir a uma Deusa. É o egoísmo básico do "fiquei satisfeito, o resto que lute".

Esperar a iniciativa de quem só olha para o próprio umbigo é como esperar que a Segurança Social te ligue para pedir desculpas. Simplesmente não acontece.

Me encontro aqui esperando o cinderelo que está com o bilau esfolado acordar para me levar para casa. Sem morning sex para mim, sem ter tido meu prazer garantido. FIASCO.

Ele prometeu a disciplina da farda, mas entregou o amadorismo de um recruta que não sabe limpar a própria arma.

Quantos mais terei que provar até achar alguém que o beijo encaixa? O viking ferrou com tudo para mim.

Essa experiência me ensinou que preciso ser mais criteriosa. Se o beijo já não encaixa, é um mal sinal de que o resto tende a ser do mesmo jeito.

Ele não me trouxe para casa, mas pagou o Uber. Não sei o que pensar sobre isso. Ele disse que gostou muito de mim e vai me ver de novo, mas senti um cheiro de caô. E também nem sei se quero encontrá-lo novamente.

Pelo menos vira pauta para o Passaporte do Amor. NEXT! 

Tô me sentindo a própria Carrie Bradshaw de Lisboa!

Balenciaga Motorcycle: A "It Bag" que desafiou o sistema e conquistou o tempo

segunda-feira, 20 de abril de 2026


Se você acompanha o mundo da moda, sabe que algumas peças nascem para ser tendência, enquanto outras nascem para quebrar as regras. A Motorcycle Bag (ou Lariat Bag) pertence ao segundo grupo. Criada em 2001 por Nicholas Ghesquière, ela quase nunca viu a luz do sol.

Quando o protótipo ficou pronto, a direção da Balenciaga não ficou convencida. A bolsa não tinha logo, era macia demais, sem estrutura rígida — o oposto de tudo o que era considerado "luxo" na época. Ghesquière chegou a deixá-la de lado por um ano.


O "Vrau" da Virada: O jogo mudou quando as modelos — as verdadeiras it girls como Kate Moss — viram o protótipo nos bastidores. Elas não queriam a bolsa da vitrine; elas queriam aquela peça que parecia um achado vintage, com ar de quem já tinha passado por mil concertos de rock. Ghesquière convenceu a marca a produzir apenas 25 unidades. O resultado? O resto é história.


Por que ela ainda importa? 

Quase 25 anos depois, a família Motorcycle (City, Work, Part Time) continua a ser o símbolo da mulher que tem "bossa". É uma bolsa funcional, com espelho embutido para retocar o batom entre um café e um texto, e um design que envelhece como vinho.

No meu olhar de consultora, a Motorcycle é o equilíbrio perfeito entre o luxo e o real. Ela não grita a marca, ela sussurra o estilo. É para quem sabe que o verdadeiro luxo não precisa de logos gigantes, mas de uma história que ressoe com a própria pele.

E você? Prefere o clássico imortal da Chanel ou a rebeldia histórica da Balenciaga? No Janaland, a gente fica com os dois.