Meu primeiro date europeu – e da vida!

terça-feira, 17 de março de 2026

foto tirada pelo date

Eu nunca tive um date!

Sim, aquele evento canônico na vida de toda a mulher de conhecer alguém, “conversar muito mesmo para tentar se conhecer”, parafraseando Legião Urbana, depois marcar um encontro e ver o que acontece.

Pensar no look, bater gilete – mas será que vai precisar? Pensar em até onde se abrir para não ser emocionada demais, expansiva demais, intensa demais. Dosar palavras, gestos, sentimentos e sensações para não afugentar o afortunado pretendente.

Se fizer sexo no primeiro encontro será considerada uma vadia? Mas devo esperar então um segundo? Terceiro? Qual a regra? Aliás existe regra?

Tantas questões...

E o para entornar ainda mais o caldeirão das incertezas, marquei esse date em um estado de euforia da mania bipolar – que é tão fugaz quanto um sopro de vento em um dia muito quente. Será que irá durar até a data marcada?

Veja bem, eu já me relacionei com homens, já fui casada.

Mas das poucas vezes que me aventurei em solos românticos, em um fugi para São Paulo para um encontro que foi com tudo que tinha direito e um mês depois estava indo de vez para a terra da garoa morar junto com o dito cujo. Passaram-se 11 anos, o amor acabou e apenas depois de 3 anos me senti recuperada da pancada emocional do término para consegui me abrir para outra pessoa: “o novinho”.

10 anos mais jovem, gostava das mesmas coisas que eu, filmes e livros e um belo dia o chamei ver um filme e dei um chá. O resto é história.

E só! Essas foram as minhas experiências com encontros na vida.

Os da adolescência não considero, porque era uma outra vida, a gente só beijava na boca – várias, aliás – e era feliz no simples, dividindo uma coca-cola de 2 litros no terraço de um shopping no qual ficávamos a tarde toda de mãos dadas. Ou nos beijávamos em bancos de pracinhas da cidade depois da aula. Bons tempos.

Agora, date como esse de buscar em casa, ir a um café depois passear em um lugar legal e, só Deus sabe o que vai acontecer, nunca tive.

E isso está me aterrorizando!

Não sei o que fazer, como me comportar.

Enfim, o frio na barriga das primeiras vezes, que nesse caso será aos 43 anos.

É uma sensação gostosa, não nego, mas totalmente fora do meu controle em uma nova vida de imigrante cheia de descontroles.

Queria ser leve e apenas aproveitar o momento e ver onde ele leva, mas para corações quebrantados e intensos, uma faísca já se torna um incêndio.

Vou me apaixonar se ele me olhar do jeito certo, no fundo dos olhos com um sorriso no rosto e um beijo perfeito? Possivelmente.

Vou quebrar a cara mais uma vez no campo do amor? Possivelmente também.

Mas quando digo que “vai, e se der medo, vai com medo mesmo” é meu lema de vida, eu levo isso plenamente a sério.

Acho que no fim das contas isso é apenas viver.

E se for para ser mais uma decepção, pelo menos fortalece, como sempre.

Ou, o mais inimaginável ainda, pode ser o começo de uma grande história – que seja pelo menos na ficção.

Um brinde as primeiras vezes! E aos recomeços! 

 


O último maço de cigarro e o sabor do recomeço

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026


Hoje o dia amanheceu com aquele tom de cinza que não vem apenas das nuvens de Portugal, mas de dentro. 
Sabe aquele "amargo na boca"? A sensação de que, apesar de seres uma puta profissional, com um currículo foda e uma bagagem internacional que não cabe em duas malas, o sistema resolveu te travar por causa de uma sigla? Pois é. Hoje o NISS venceu a batalha, e eu me permiti sentir o dissabor do fracasso momentâneo.

Mas no Janaland, a gente não doura a pílula. A gente engole o seco e transforma em texto.

Decidi que hoje seria o meu dia de Licença Poética. O dia de olhar para a minha vulnerabilidade e dizer: "Ok, senta aqui, vamos tomar uma cerveja". Fiz o meu prato favorito — macarrão com bacon, calabresa e creme de leite — e coloquei aquela música que faz a alma vibrar em Sesimbra.

E, principalmente, comprei aquele que decidi ser o meu último maço de cigarro.

Parece pouco, mas quem vive a ansiedade da imigração sabe como o cigarro vira uma bengala de fumo. Parei na pandemia, mas o combo "ansiedade + Portugal" me trouxe de volta. Só que a matemática não fecha mais. Nem a financeira (seis euros a cada dois dias é o preço de um sonho jogado no lixo), nem a de vida. Eu quero fôlego. Quero caminhar à beira-mar sem tossir. Quero gastar esses euros em Ubers para a Revista Máxima, não em fumo na varanda.

Hoje, eu me dei o direito de sofrer. De chorar a vaga do aeroporto que escorreu pelos dedos por pura burocracia. De me sentir frágil sob a chuva de Sesimbra.

Mas amanhã? Amanhã a fénix acorda.

Amanhã o meu corpo já não vai cheirar a tabaco. Vou acordar com o orgulho de quem escolheu a si mesma em vez da autodestruição. Minha terapeuta me lembrou hoje: eu sou foda. Lisboa continua lá, as redações continuam lá, e a minha capacidade de desbravar o mundo não diminuiu um milímetro porque um papel ainda não ficou pronto.

Hoje é dia de música, comida conforto e despedida. Amanhã é dia de ser, novamente, a melhor versão de mim. Que Deus me ajude e Nossa Senhora me dê forças, porque a caminhada só está começando.

Colei meu lema na parede para não esquecer nunca mais:

VAI,  E SE DER MEDO, VAI COM MEDO MESMO! 

Por hoje eu vou sofrer a depressao bipolar e a re-despedida desse meu companheiro de tantos anos, mas amanhã renasço das cinzas! 

15 perguntas para sair de um relacionamento abusivo e deixar de amar alguém em 15 minutos: Protocolo de Desromantização

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

 


Amiga, senta aqui. Se estás a ler isto, é porque o "lovecasting" (aquela projeção idealizada do futuro) ainda tenta sussurrar-te ao ouvido. Mas aqui no Janaland, a nossa bússola é o realismo visceral.

Tu dizes que tens medo de Lisboa sozinha (no caso eu mesma). Eu digo-te que o teu cérebro está apenas a tentar processar a saída de um Estado de Hipervigilância. Quando passamos por um relacionamento abusivo, o nosso sistema nervoso torna-se um perito em detetar ameaças. O problema? Ele vicia-se no cortisol (a hormona do stress).

O psicólogo Arthur Aron, em 1997, provou que a vulnerabilidade gera paixão. Mas no abuso, a vulnerabilidade é usada como arma de cerco. Por isso, hoje, vamos aplicar o Protocolo de Desromantização. É uma adaptação clínica para dissolver o vínculo pelo realismo puro.

Queria ter conhecido isso há 20 anos atrás quando vivia em um relacionamento abusivo e não tinha a minima ideia disso...

Se uma amiga que não conseguiu sair desse ciclo me visse agora, ela diria: "Não voltes. Eu daria tudo para estar onde tu estás: livre, em Sesimbra, a caminho de Lisboa".

Responde mentalmente, sem filtros:

1. O Ciclo da Intermitência (O Vício Dopaminérgico)

  • A Pergunta: Quando sentes falta, sentes falta dele ou do alívio que sentias quando ele, por breves momentos, parava de te magoar?

  • A Ciência: Pesquisas em neurobiologia mostram que o Reforço Intermitente (carinho imprevisível misturado com punição) cria um vínculo de trauma mais forte que o vício em heroína. O teu cérebro não sente falta de amor; sente falta da "dose" de alívio.

  • Dados Científicos: O Ciclo da Violência (Walker, 1979) explica que a fase da "Lua de Mel" é apenas uma estratégia biológica de manutenção do cativeiro emocional.

2. A Erosão da Identidade (Gaslighting)

  • A Pergunta: Lembras-te de quantas vezes duvidaste da tua própria sanidade porque ele distorceu a realidade? Quem é que tinha razão sobre o teu potencial?

  • O Realismo: O abuso não é sobre amor, é sobre Controlo Coercivo. A ciência define isto como um padrão de dominação que usa o isolamento e a degradação para anular a autonomia da vítima.

3. O Teste do "Não Passaria por Tudo Novamente"

  • A Pergunta: Se te dessem hoje a escolher entre a paz solitária de um quarto em só seu em qualquer lugar no mundo ou o barulho ensurdecedor de um jantar onde não podes ser tu própria... qual escolherias?

  • A Verdade de Amiga: O  mundo é apenas uma cidade com metros e ladeiras. O abuso era uma prisão sem grades. 

Agora vamos lá, responda mentalmente sem justificar: 

1- Que comportamentos provam que essa pessoa não compartilha meus valores? 

2- Três momentos em que ela prejudicou minha saúde mental. 

3- Se eu descrevesse essa pessoa num tribunal, só com fatos, como seria? 

4- Que defeitos eu venho romantizando? 

5- O que ela faz comigo que eu não aceitaria de um estranho? 

6- Quantas vezes, nos últimos 15 dias, eu me senti em paz nessa relação? 

7- O que eu abandonei de mim para manter isso — e o que recebi em troca? 

8- Minha produtividade e meus objetivos melhoraram ou pioraram? 

9- Se fosse com uma amiga minha, eu diria: fica ou sai? 

10- Qual traço incompatível eu ignoro sempre que bate a saudade? 

11- Eu amo quem essa pessoa é hoje — ou quem eu espero que ela vire? 

12- Se nada mudar em dois anos, como estará minha vida emocional? 

13- Três vezes em que eu precisei de apoio e recebi indiferença. 

14- Que vazio meu eu estou tentando preencher mantendo esse vínculo? 

15- Qual será meu primeiro ganho de liberdade quando eu soltar isso? 

Nota da Autora: Este protocolo não substitui terapia (que, aliás, já marquei para amanhã!), mas é o meu balde de água gelada. A melancolia de hoje é apenas o resíduo do cortisol a sair do corpo.

E de pensar que a primeira vez que tomei antidepressivo foi quando tive um diagnóstico de depressão + co-dependência emocional após o pé na bunda que levei do meu ex, que mesmo sendo eu que apanhava e era chutada enquanto estava caida no chão nunca tive coragem de abandonar o barco e sair daquele relacionamento. 

Agora estou aqui, morando na Europa e semana que vem, quando o Uber parar à porta da Revista Máxima (meu emprego dos sonhos), me lembrarei que não estou a pedir licença para existir. Estarei a ocupar o lugar que o abuso tentou dizer que não era meu!